E-book Cemitério dos Aflitos: contos de vida


Thais Matarazzo lança romance histórico sobre a primeira necrópole de São Paulo, de 1775, destinada ao enterro de escravos, indigentes, suicidas e crianças órfãs

“João Coveiro era bom prosista, era sabedor de muitas trajetórias de vidas dos ‘seus mortos’. Perdeu as contas dos milhares de enterramentos que realizou. Todos que ali jaziam eram pessoas que, muitas vezes, foram sem dizer adeus a ninguém. Por vezes, era o único a dar uma palavra de conforto àqueles que acompanhavam seus fenecidos à cova. Considerava-se o ‘guardião do cemitério’, Nossa Senhora dos Aflitos e São Pedro foram escolhidos como os seus padrinhos no seu batismo na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, tinha convicção que seus protetores não foram escolhidos à toa” 

O trecho acima abre o romance histórico “Cemitério dos Aflitos - Contos da Vida”, da jornalista e escritora Thais Matarazzo, de São Paulo. A obra é resultado de extensa pesquisa, realizada pela autora, nos arquivos da Cúria, no final de 2019, e será lançada, no dia 25 de junho, em formato e-book, com acesso gratuito via plataforma ISSUU da Editora Matarazzo, com apoio do Coletivo São Paulo de Literatura. 

O livro sai em reverência à centenária Capela dos Aflitos, uma construção em taipa de pilão, no bairro da Liberdade, que pertencia à Santa Casa, no antigo Cemitério da Sé – que, antigamente, era conhecido como Cemitério dos Pretos Novos ou Cemitério dos Aflitos. Foi a primeira necrópole da cidade, aberta em 1775, destinada ao enterro de escravizados, pobres, indigentes, supliciados, suicidas, doentes e crianças órfãs.

“Considero este um dos melhores livros que produzi”, considera Thais, autora de dezenas de obras literárias, entre ficção e não-ficção.  “Acontece que, no dia 27 de junho, a Capela dos Aflitos, único patrimônio material que sobrou do extinto cemitério, vai completar 241 anos”, explica Thais, que deseja, ao disponibilizar a obra no ISUU, fornecer subsídios para outros pesquisadores e interessados no assunto, por meio de uma obra com linguagem mais acessível do que a acadêmica: “É um trabalho feito com muito respeito e humildade. Sou jornalista estudiosa da área não sou historiadora”. 

Durante a pesquisa, a autora leu diversas teses, dissertações, livros, não especificamente sobre o cemitério e a capela, mas sobre enterros no século 19 e a vida de africanos livres em São Paulo. “Mas o conteúdo mais relevante eu encontrei nos quatro meses em que pesquisei no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo, no final do ano passado, além dos livros de óbitos. Os personagens surgiram dos registros que coletei nos livros da Antiga Sé, referente aos enterramentos do Cemitério da Sé, entre os anos de 1820 e 1858, quando o cemitério fecha e abre o da Consolação”, explica Thais. 

As tramas são criações da escritora, baseadas em situações retratadas nos processos eclesiásticos: “São processos dos séculos 18 e 19, de divórcio, de feitiçaria, entre outros, julgados dentro da igreja. Alguns acabavam em excomunhão. Transportei esses casos para as narrativas que eu criei, mas fui muito fiel aos causos, personagens e situações que aconteceram em São Paulo, na primeira metade do século 19”, descreve. 


Sinopse: As 21 narrativas do livro são contadas por três personagens protagonistas: o casal de escravizados João Coveiro e d. Lina, e o escrivão Jair. Eles trabalhavam no Hospital de Caridade de São Paulo. João também era responsável pelo enterramento de pessoas que viveram à margem da sociedade no cemitério da cidade, e se tornou o guardião de muitas memórias do local, assim como d. Lina, zeladora da capelinha do Nª. Srª. dos Aflitos. Ao ser contratado para trabalhar no hospital, João faz amizade com o casal, e por meio de inúmeras conversas, ele fica sabendo das histórias de vidas regadas a injustiça, rebeldia, tristeza, mistérios, amores e crimes, principalmente envolvendo os africanos sepultados naquela necrópole, entre 1821 e 1858, data em que se dá o encerramento das atividades do cemitério, que passaria a ficar conhecido como “Cemitério dos Aflitos”. No final do século 19, Jair resolve registrar essas memórias em livro, para que não se perdessem nas brumas do futuro.

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