Goffredo, Timótheo, Abigail

 Goffredo, Timótheo, Abigail
(A saga de uma obra prima)

Por Pedro Paulo Maillet Preuss


Eu só queria jogar bola.

Montevideo fervia. Levas e mais levas de imigrantes italianos, dentre eles eu, borbulhavam nas ruas onde a  esperança  de uma vida melhor brilhava nos olhos e saltitava na face de cada transeunte.

Fui escolhido na rua. Brincava com a minha bola. Um conterrâneo, cabeludo, estranho, com ares de gênio, me chamou e perguntou se eu não poderia posar para uma pintura. Com a minha bola. Imaginei a minha face estampada no Circolo Napolitano, no Mutuo Soccorro ou na Lega Lombarda. O sonho da criança que um dia almejava o futebol, então incipiente. E assim se fez. Fiquei estampado num quadro. O nome do artista, falo já: Goffredo Sommavilla.

O retrato ficou pronto. A mão parecia defeituosa. Fui esquecido. Não estampei manchetes, não fui entrevistado, não vivi a glória. Amarguei um doce esquecimento no atelier do artista. Com sua morte, meu destino foi o “brechó”, onde mais uma vez, olvidado pela vida, passei longos anos em desmemoria.

Um dia me encontraram. Fui comprado. Estampado em cartão, estava machucado, riscado, vilipendiado. O preço: na bacia das almas. Minha saga se refez.

Cheguei ao Brasil. Que povo! Que terra! Que gente! Mas logo me entristeci. Manipulado pela tentativa de lucro fácil com a adesão identitária a uma estética afrocentrista, desde logo me fizeram a expressão de um artista negro. Virei Arthur Timotheo da Costa. Logo percebi que estava em mãos de maganos. Leilão aqui, leilão ali e nada.  Aguardei paciente por melhor destino.  Mas ele não veio.

Cortaram minhas pernas, não jogo mais bola. Cortaram o meu céu, tiraram minha esperança. Diminui de tamanho. Fizeram de mim uma construção identitária feminista do Sec. XIX. Virei Abigail de Andrade.

O Rio de Janeiro não me queria. Vim para São Paulo. Enfim, fui comprado. Não em leilão, onde também ninguém  me quis. Um colecionador incauto fez de mim o seu orgulho. Mas um detalhe no verso e um livro  Bellunense espancaram quaisquer dúvidas. Eu era mesmo  Sommavilla. Desfeito o negócio, deixei um lar onde achava que seria feliz.

Hoje vago pelo Rio de Janeiro. De leilão em leilão. Fruto de inescrupuloso ardil, sou a prova viva do argentarismo que permeia o mundo das artes

Eu só queria jogar bola.

 

                             
Arthur Timotheo da Costa                                       Abigail de Andrade
   

 

 

 Goffredo Sommavilla

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